Palavra da ACI

ACI - Associação Catarinense de Imprensa - Casa do Jornalista Redes sociais têm se transformado em um ambiente nocivo à honra e à imagem

Presidente da Associação Catarinense de Imprensa/Casa do Jornalista, Ademir Arnon

O presidente da Associação Catarinense de Imprensa (ACI)/Casa do Jornalista, Ademir Arnon, é categórico ao afirmar que, de um modo geral, a imprensa precisa aprimorar o seu modelo de captura e entrega de notícias ao seu público. Para Arnon, jornalistas estão reproduzindo versões disponibilizadas por órgãos oficiais, como o Ministério Público e Polícias, como se fossem verdades absolutas. Ele defende mais responsabilidade no trato da notícia e que, mais importante do que o “furo” jornalístico é a divulgação correta dos fatos.

Nesta entrevista ao portal JusCatarina, Ademir Arnon também comenta o cenário atual dominado pelas redes sociais e seus reflexos no jornalismo e na vida em sociedade. Aborda também temas como censura, liberdade de expressão, convergências entre o trabalho realizado por jornalistas e operadores do Direito e quais os benefícios dessa aproximação para o cidadão comum. Confira:

JusCatarina – A imprensa foi duramente criticada no episódio que envolveu a morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luis Carlos Cancellier. Na sua opinião, a imprensa errou na cobertura?
Jornalista Ademir Arnon 
– O erro da imprensa, salvo melhor juízo, foi o de reproduzir, pura e simplesmente, a versão dos órgãos envolvidos na Operação Ouvidos Moucos. Os veículos de comunicação, não só aqui em Santa Catarina como de resto em todo o Brasil, seja por falta de estrutura ou por necessidade de noticiar os fatos com a maior brevidade possível, estão tendo dificuldades de ir mais a fundo, de investigar melhor os casos, analisar com o devido cuidado uma história. Muitas vezes, a versão apresentada pela polícia ou pelo Ministério Público, por exemplo, basta por si só, como se ela fosse uma verdade absoluta e, sendo assim, pode ser publicada sem qualquer preocupação. Há que se ter cuidado, pois em algum momento, esse tipo de postura pode abrir espaço para injustiças e tragédias. Talvez seja o momento de repensarmos o tipo de jornalismo que estamos praticando. Algo maior do que a mera reprodução de versões, do que simplesmente sair na frente do concorrente. A responsabilidade na forma como tratamos a notícia deve sempre estar em primeiro lugar.

JusCatarina – Qual a sua avaliação acerca do papel que a imprensa exerce atualmente. Quais os pontos positivos e negativos no que se refere ao trabalho realizado pelos jornalistas e seus respectivos veículos de comunicação?
Jornalista Ademir Arnon
 – Eu acho que a imprensa tem contribuído significativamente para o aperfeiçoamento da nossa democracia e para o fortalecimento do nosso Estado de Direito. O momento pelo qual estamos passando ilustra bem o que estou dizendo. É inegável que sem a imprensa, muitas das operações realizadas pelos órgãos de controle e que colocou atrás das grades figuras proeminentes da República e do meio empresarial, dificilmente teriam êxito. No entanto, como já dito anteriormente, precisamos avançar, sobretudo em relação à responsabilidade com que estamos tratando as informações. E isso exige do profissional de imprensa conhecimento e preparo que só o aprimoramento permanente é capaz de proporcionar.

JusCatarina – Estamos vivendo um período de grandes transformações na área do jornalismo, em razão desse novo momento dominado pela tecnologia e pelas redes sociais. Como enfrentar essa nova realidade?
Jornalista Ademir Arnon
 – Nós observamos esse novo panorama com muita preocupação, seja pelo impacto que essas mudanças já estão tendo no mercado de trabalho, seja pelo perigo que o mau uso das redes sociais oferece aos cidadãos. É um momento que exige grande capacidade de adaptação e quem não estiver disposto a enfrentá-lo terá grandes dificuldades de se posicionar ou até mesmo se manter no mercado. De igual modo, nos preocupa a forma como as redes sociais têm sido utilizadas. Ao mesmo tempo em que representaram enorme avanço para a civilização, permitindo a democratização da informação, elas têm se transformado em um ambiente “radioativo”, com alto poder de nocividade à imagem e à honra das pessoas. O desafio é justamente encontrar um meio termo, um caminho que nos permita criar novas oportunidades de trabalho para os jornalistas e demais profissionais de comunicação, o que eu acho perfeitamente possível, e também garantir o bom uso deste novo e precioso espaço de comunicação social.

JusCatarina – Recentemente houve uma tentativa do próprio Congresso no sentido de censurar determinados tipos de conteúdo nas redes sociais. Como o sr. vê essa iniciativa e se há ou não necessidade de se estabelecer algum tipo de controle sobre o que está sendo veiculado na internet?
Jornalista Ademir Arnon – Nenhum direito constitucional é absoluto. E com a liberdade de imprensa não pode ser diferente. Sempre defendi de forma intransigente a liberdade de imprensa, por entender que ela é, indubitavelmente, um dos principais pilares do Estado Democrático de Direito. Agora, essa liberdade deve vir sempre acompanhada de responsabilidade. Não há necessidade de se impor censura, pois a nossa legislação já possui mecanismos para coibir ou punir eventuais abusos. E com relação a essa tentativa de censura aprovada no Congresso e posteriormente vetada pelo presidente da República, ela não foi pensada para proteger o cidadão, mas sim uma classe. Logo, ela não só é ilegítima, como também é imoral.

JusCatarina – Temas ligados à área do Direito tem conquistado cada vez mais espaço no noticiário. A cobertura que tem sido feita até aqui está adequada ou precisa melhorar?
Jornalista Ademir Arnon – Eu diria que avançamos relativamente bem nesse aspecto, mas, como em tudo na vida, sempre dá para melhorar. Não raro, os jornalistas cometem pequenos equívocos, dizendo que a Justiça “deu parecer” ou que o Ministério Público “decidiu” sobre determinada demanda, quando se sabe que é o contrário, ou seja, é o juiz que decide e o promotor que emite o parecer. Mas há um outro detalhe que mostra o quão é importante que os nossos jornalistas tenham conhecimento em relação ao Direito. Se formos observar, boa parte do noticiário hoje é composto por matérias relacionadas à Justiça e ao meio jurídico. Entender como funciona essas áreas, a linguagem utilizada, as mudanças legislativas, entre outras, é fundamental para que o profissional de imprensa possa cumprir adequadamente o seu mister, qual seja, o de informar corretamente o cidadão.

JusCatarina – De que forma a ACI tem trabalhado para aproximar os profissionais da imprensa do meio jurídico?
Jornalista Ademir Arnon
 – A Associação Catarinense de Imprensa (ACI), juntamente com outras entidades, como a Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), já realizou vários eventos para discutir o papel e as relações entre os jornalistas e os operadores do Direito. Apoiamos, inclusive, a iniciativa da Escola Superior da Magistratura de Santa Catarina (Esmesc), de criar um curso em nível de pós-graduação para tratar dessas duas áreas, comunicação e Direito, que, infelizmente, não começou por falta de interessados. Acho que o momento é propício para realizarmos novos encontros e oferecer aos nossos profissionais de comunicação novas oportunidades de aprimoramento para atuação neste nicho de mercado.

JusCatarina – E de que maneira a sociedade pode se beneficiar dessa aproximação entre jornalistas e operadores do Direito?
Jornalista Ademir Arnon
 – De muitas maneiras. Existem muitas convergências no trabalho realizado pelos jornalistas e operadores do Direito. Temos em comum a luta por justiça, democracia, direitos humanos, ética, transparência, respeito à coisa pública e às leis, consolidação dos direitos civis e tantos outros, de modo que a atuação conjunta, com respeito à independência de cada classe, é extremamente salutar. Essa parceria pode se transformar num poderoso instrumento a serviço da cidadania, ao oferecer ao cidadão a oportunidade de se informar e conhecer melhor sobre os seus direitos. Por essa razão, acredito que a construção de um país melhor, de uma nação mais justa, ética e socialmente igualitária, passa, necessariamente, pelo fortalecimento das nossas instituições democráticas, com uma imprensa livre e responsável e um sistema de Justiça forte e independente.

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