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 Nossa História

Por Moacir Pereira
Ex-presidente e membro do Conselho Superior
 

Altino Flores: o fundador da ACI
 

A fundação da Associação Catarinense de Imprensa deu-se em Florianópolis pelo esforço e liderança do jornalista e professor Altino Flores, um profissional ético, independente, culto e rigoroso na politica, que marcou destacada presença na comunicação do Estado durante mais de cinco décadas.

Notabilizou-se, também, por se constituir num dos jornalistas mais polêmicos de seu tempo. Não abria mão se suas convicções políticas, ideológicas e éticas e, por isso, pagou elevado preço ao longo da carreira.

De formação liberal e depois um dos expoentes da extinta UDN, ocupou cargos destacados no magistério, até ser convidado para exercer a Secretaria da Casa Civil em vários governos.

O calendário oficial do Estado indicou durante todo o século passado como sendo em 1934 a data de criação da Associação Catarinense de Imprensa.  Constava de documentos do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e da Academia Catarinense de Letras, além de várias obras de renomados historiadores. 

Por isso, o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina decidiu realizar em 2009sessão comemorativa aos 75 anos de fundação da ACI.

Convidado para falar na ocasião, decidi realizar pesquisas nos jornais da época na Biblioteca Pública de Florianópolis.  Lendo os jornais de maior circulação constatei  a publicação de um edital de convocação dos profissionais para “re-fundação” da Associação.  Portanto, a entidade já existia.  Faltava identificar a data de fundação, pesquisa que exigiria muito tempo, pois não havia a menor referência sobre data anterior a 1934.

A primeira luz surgiu com uma cópia do Diário Oficial do Estado, contendo a Lei Estadual n. 173, de 1937, que declarava de utilidade pública a Associação Catarinense de Imprensa. O ato era assinado por Nereu Ramos e mencionava 1932 como o ano de fundação da entidade.

O extrato da Reforma de Estatutos consta de documento oficial da Imprensa Oficial do Estado e indica o registro na Biblioteca Pública sob número 21.078, de 31-10-83. Revela:
“A Associação Catharinense de Imprensa, sociedade civil, fundada a 31 de julho de 1932, em Florianópolis, onde tem sua sede, compõe-se dos que trabalham na imprensa do Estado de Santa Catarina, de cuja classe se torna órgão de amparo, seleção e disciplina.”

O ato histórico aconteceu na sede da Liga Operária Catarinense, na rua Tiradentes, esquina com rua Nunes Machado.
 

A nova data

Transcrevo do livro “Altino Flores – Fundador da ACI” o trecho que documenta a descoberta da nova data e traz novos dados sobre os jornalistas e intelectuais que colaboraram com a criação da entidade. Entre os que tiveram ativa participação destacam-se Othon Gama d’Eça, José Diniz, Martinho Calado Junior, Sebastião Vieira, Osvaldo Melo, João Baptista Pereira, Laércio Caldeira de Andrada, Tito Carvalho, Gustavo Neves, Flávio Bortoluzi de Souza.

A narrativa é a seguinte: “Estabelecida a convicção de que a criação da ACI não se dera em 1934, o principal desafio se concentrou em descobrir quando se dera realmente a fundação. Uma meta que exigiria semanas,  talvez meses de investigação, obrigando o penoso manuseio de coleções dos jornais de Desterro durante pelo menos três décadas: de 1910 as anos 30. Isto nas precárias instalações da Biblioteca Pública do Estado, uma sauna no verão e um freezer no inverno, com as edições antigas dos jornais com páginas destruídas e folhas em altíssimo grau de fragilidade.

Consultas feitas entre historiadores resultaram infrutíferas. Nas bibliotecas e nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e na Academia Catarinense de Letras não há um único documento que trate da ACI em período anterior a 1934. Pesquisa efetuada na Biblioteca Central da UFSC revelou-se igualmente improdutiva. 

O documento revelador facilitou as novas consultas nas edições encadernadas da Biblioteca Pública. Edições de vários jornais de Florianópolis e de várias cidades do interior comemoram a fundação da ACI. Ali, a registrar dois fatos novos: o primeiro, pelo destaque dado ao evento histórico, quase sempre no alto da capa dos diários. Segundo, o relato das dificuldades encontradas para criação da entidade. O Estado narra em sua edição de 26 de julho de 1932, que não fora possível fundar a entidade. Mas, por motivos não esclarecidos, deixa de oferecer as razões. Muito provavelmente pela ausência de quórum ou número insuficiente para concretizar o projeto, fato, aliás, ocorrido também na Associação Brasileira de Imprensa, em abril de 1808.   Ou, ainda, porque o líder do movimento, Altino Flores, já era conhecido como o jornalista mais polêmico do Estado. Num período conturbado da vida nacional, a fundação de uma entidade de jornalistas representava mudança e risco de confrontações. Altino Flores, também a exemplo do que ocorrera com Gustavo de Lacerda, era um homem dos debates elevados, da polêmica, do apoio a movimentos sociais e, de certa forma, com um traço de simpatia pelo anarquismo.

A nota está na capa daquela edição, sob o título Associação Catarinense de Imprensa, aliás, usado repetidas vezes por quase todos os jornais daquela época:
“Foi recebida com simpatia a iniciativa tomada, há poucos dias, pelo Estado, para a fundação da Associação Catarinense de Imprensa.
Infelizmente, porém, circunstâncias absolutamente alheias à vontade dos jornalistas, ora presentes em Florianópolis, os impediram de se reunirem na data fixada para a realização daquele projeto.
Sendo, como é, absoluta a necessidade de se arregimentarem, em coeso bloco os profissionais da imprensa catarinense, pois há vários problemas atinentes à classe que estão a exigir uma ação conjunta para se obter resultados palpáveis, na hora que atravessamos, O Estado convida a todos os que laboram no jornal da nossa terra - diretores, redatores, repórteres e gerentes - a se reunirem, domingo próximo, às 10 horas, em ponto, no salão da Liga Operária Catarinense, à rua Tiradentes”.

Era realmente frustrante o relato, eis que, nas edições anteriores, o jornal tratara do assunto em suas colunas. Na edição do dia 28 de setembro de 1932, a capa traz bem no alto o título “Associação Catarinense de Imprensa”, o que já indica a determinação de sua direção em torno da nova entidade. O tom do escrito é revelador:

“A necessidade da união dos profissionais da imprensa é incontrastável.Já o reconheceram os jornalistas de todos os países, mesmo no Brasil, havendo, porém, alguns Estados, onde, por desídia, essa união ainda está por se realizar.Santa Catarina não deve ser o último deles a congregar, em bloco harmônico, para a defesa dos interesses da classe, aqueles que laboram, entre nó, na profissão jornalística diretores, redatores, repórteres e gerentes dos diários e periódicos locais, estejam, ou não, no presente momento, em atividade.Foi norteado por essa idéia que O Estado tomou a iniciativa de promover a fundação da Associação Catarinense de Imprensa - o que se fará no próximo domingo, às 10 horas, no salão da Liga Operária, à rua Tiradentes.Para o aludido ato de fundação, rogamos o comparecimento de todos quantos se encontrarem nas condições acima aludidas.”

Dois dias depois, a 30 de julho, O Estado retoma o tema para reiterar convite a todos os profissionais em torno da nova causa.  O destaque dado pelo matutino era sinal eloquente do empenho de seu diretor, o jornalista Altino Flores, em torno do projeto. Título, outra vez “Associação Catarinense de Imprensa”. E, acentuando, em forma de apelo:

“Amanhã, às 10 horas, reunir-se-ão, na Liga Operária, os jornalistas residentes nesta capital - quer estejam em atividade profissional, quer não, - para o fim de ser fundada a Associação Catarinense de Imprensa.O Estado, que tomou essa iniciativa, renova o convite, que já fez de suas colunas, aos diretores, redatores e gerentes dos jornais desta capital e aos do interior do Estado, que, porventura, se achem em Florianópolis - bem como a todos os jornalistas mesmo atualmente afastados do exercício da profissão - para se associarem, com sua presença, à reunião de amanhã”.

No dia 31 de julho, o jornal “República” traz, igualmente, convite para a criação da ACI. Título: “Associação Catarinense de Imprensa”.
Texto:

“A convite dos nossos confrades do Estado reunir-se-ão hoje, às 10 horas, na sede da Liga Operária Beneficente, os jornalistas residentes nessa capital, para tratarem da fundação da Associação Catarinense de Imprensa.”

A data oficial de criação da ACI é publicada nas edições anteriores de O Estado e de outros jornais da Capital. Pelo interior, espalha-se a informação, quase sempre com destaque.
O Estado publicou o seguinte relato sobre a fundação da ACI no dia 1º de agosto de 1932:

“Estiveram, ontem, às 10 horas,reunidos, na sala das sessões da Liga Operária Beneficente, gentilmente cedida pela sua digna diretoria, as pessoas que aderiram até agora, a iniciativa da fundação da Associação Catarinense de Imprensa. Estavam, pois, presentes, os nossos confrades srs. Oswaldo Mello, Ney Luz, João Baptista Pereira, Benjamim Lucas de Oliveira, Dagoberto Nogueira, Biagio D’Alascio, L. Romanowski, Genésio Paz, Professor Altino Flores, Cássio da Luz Abreu e Gustavo Neves. Os Srs. Laércio Caldeira de Andrada, Othon D’Eça e Tito de Carvalho se fizeram representar pelo Sr. Professor Altino Flores, que o declarou.

O sr. Prof. Altino Flores, em ligeiras palavras, expôs os propósitos da reunião, convocada pelo Estado, e apresentou algumas sugestões desde logo aceitas pelos presentes, atinentes à orientação que deveria nortear a vida da Associação que se estava fundando. Dentre essas sugestões, três foram unanimemente votadas para figurarem em ata como princípios assentes que virão a constar dos Estatutos a serem elaborados:

1) que poderão fazer parte da Associação os diretores, redatores e gerentes dos jornais publicados em língua estrangeira, no Estado de Santa Catarina; 2) que a Associação Catarinense de Imprensa não terá, por enquanto caráter beneficente; 3) que nenhum membro da Associação Catarinense de Imprensa poderá, sem se incompatibilizar com a própria permanência no quadro social, aceitar da incumbência de censor de qualquer jornal, no caso de estabelecer-se a censura à imprensa.

Foi, em seguida, aclamada a seguinte diretoria provisória: presidente, Professor Altino Flores; secretário, Oswaldo Mello; tesoureiro, Benjamim Lucas de Oliveira. Essa diretoria nomeou os seguintes consócios para elaborarem os Estatutos: Prof. Laércio Caldeira de Andrada, Ney Luz e Genésio Paz. Essa comissão fará, também, título provisório, a sindicância.

Para o cargo de tesoureiro, e, depois, para membro da comissão de redação dos Estatutos fora também aclamado o nome do Sr. João Baptista Pereira, tendo esse confrade declinado de um ou de outro cargo, pedindo disso escusas aos presentes e alegando achar-se sobrecarregado de ocupações presentemente.
Ficou ainda assentado que se enviassem circulares a todos os jornais do interior do Estado, convidando seus diretores, redatores e gerentes e se filiaram nominalmente à Associação. Também ficou fixada a mensalidade de 3$000 para os associados.”

 

Associação – Sindicato – Casa

Ao longo destes 80 anos, a semente plantada por Altino Flores e seus companheiros frutificou. Durante o Estado Novo a entidade sofreu perseguições e viveu períodos de inatividade. A partir da redemocratização, em 1946, retornou com o nome de Associação dos Profissionais de Imprensa, tornando-se mais vigorosa na década de cinquenta.  Este Associação foi fundamental para criação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina.

Em 1968, o jornalista AlírioBossle, constatou em Porto Alegre que a Associação Riograndense de Imprensa era uma entidade agregadora e forte, que reunia jornalistas, radialistas e empresários de comunicação. Trouxe a ideia para Santa Catarina, criando a Casa do Jornalista.
Na gestão de Osmar Teixeira, a entidade retornou à denominação original, com a mudança do nome, passando a se denominar Associação Catarinensede Imprensa.

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