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  Publicado em 08 de Dezembro

Jornalistas mulheres são as maiores vítimas de ataques no ambiente digital

Ilustração por Naomi Ushiyama; Indypendent / Creative Commons

Além de um ano marcado por violência contra a imprensa e seus profissionais, 2020 termina com sinais claros de mulheres jornalistas no centro desses ataques. Levantamentos recentes sinalizam que mulheres são as vítimas mais recorrentes de perseguições no ambiente digital no Brasil, na América Latina e no mundo.

Só em novembro de 2020, a Abraji contabilizou 43 alertas específicos enquadrados na categoria “Ataques contra a Liberdade de Expressão”Cinco desses abusos se deram na internet — e todos contra mulheres. De 72 registros na categoria ao longo do ano, 20 se referiam a profissionais do gênero feminino, 36 a meios de comunicação e 16 a homens.

As violações no ambiente virtual contra pessoas de qualquer gênero e instituições cresceram, até agora, 140% em relação a 2019 (30). O Relatório Sombra daquele ano, publicado pela rede Voces del Sur, não classificava as vítimas por gênero, impossibilitando uma análise da série histórica por esse recorte.

Na avaliação da assessora jurídica da Abraji, Letícia Kleim, o levantamento mostra como os ataques a mulheres jornalistas se tornaram sistemáticos no Brasil. “Além disso, encontraram no ambiente digital um meio de se propagar por meio de redes articuladas de agressores, e práticas que reúnem características de assédio, misoginia, perseguição e exposição de dados pessoais”.

Abraji emitiu quatro notas de repúdio em nov.2020. Todas envolviam ataques a mulheres jornalistas. Destas, três foram casos de retaliação no ambiente digital a repórteres que cumpriam seu papel profissional. A outra foi um caso de agressão contra Bárbara Barbosa, da NSC TV (afiliada da Globo em Santa Catarina), durante a cobertura das praias lotadas no estado, apesar de um decreto que proibia a permanência de pessoas na faixa de areia do litoral de Florianópolis.

Ao analisar os números sobre discursos estigmatizantes contra a imprensa e jornalistas - aqueles proferidos por políticos e autoridades públicas -, também é possível observar mulheres como alvo. Durante todo o ano de 2020, a Abraji identificou 120 ataques enquadrados nessa categoria - oito contra repórteres mulheres de forma direta, como fez o deputado Jessé Lopes (PSL), ao responsabilizar a equipe da NSC TV pela agressão sofrida na praia.

 

Registrada pela Abraji como assédio judicial, a retaliação do procurador-chefe do Ministério Público Federal de Goiás, Ailton Benedito, contra o site Aos Fatos, desencadeou uma ação coordenada de ataques virtuais à diretora da iniciativa, Tai Nalon.

Com mais de 400 mil seguidores no Twitter, o day trader Leandro Ruschel incitou sua audiência a injuriar a jornalista após ser classificado pela agência de checagem como um dos principais desinformadores sobre as eleições norte-americanas.

Nalon contou à Abraji que sofreu constrangimentos graves nas redes sociais em 2018, quando o MBL (Movimento Brasil Livre) produziu um “dossiê” acusando checadores de fatos de terem viés partidário e de atuarem como “censores”.

“Desde então, tornou-se recorrente ser provocada por atores políticos. Em novembro, o volume foi bem mais significativo, com forte componente misógino. O que me deixa mais preocupada é que o tempo passa, mas nenhuma ação efetiva contra o assédio é tomada pelas plataformas ou por atores políticos. Ficou tão normal atacar jornalistas e, por consequência, ser atacada, que passei a encarar essas ações com certa naturalidade. Não deveria”, afirmou.

Ainda em nov.2020, mais de 100 mulheres jornalistas reagiram ao lançar um manifesto em repúdio aos ataques contra Nalon. Publicado no site independente Amazônia Real, o documento defende:

“Além de disseminar mentiras e propagar o ódio e estigmas de cunho machista contra uma mulher, o que configura uma violência de gênero, o procurador Ailton Benedito está processando a jornalista Tai Nalon com uma tática conhecida internacionalmente como SLAPP (Strategic Law Suit Against Public Participation), que é uma estratégia na qual um grande número de ações são propostas em juízo, não com o intuito de obter a prestação jurisdicional pretendida na inicial, mas sim de tentar intimidar o réu e com isso, interditar o debate público.”

Mulheres que trabalham em agências de checagem se tornam um alvo ainda mais provável. Para Laura Zommer, fundadora da primeira agência de checagem da América Latina, o Chequeado, da Argentina, há de se prestar atenção nas frequentes articulações de desinformadores para deslegitimar o trabalho dos checadores. No debate “Democracia na América Latina pós-pandemia”, oferecido pela organização sem fins lucrativos Luminate, Zommer lembrou que proteger o debate público de mensagens com intenção de desinformar “é uma tarefa de toda a sociedade que exige articulação para além dos jornalistas.”

Outro caso de assédio em ambiente virtual foi o da estudante de jornalismo Andressa Vieira. Ela integra o Coletivo Niara, grupo de disseminação da cultura negra da Universidade Federal do Pampa, que participa do projeto Comprova, liderado pela Abraji. Vieira foi vítima de doxing (exposição de dados pessoais na internet), entre os dias 11.nov.2020 e 14.nov.2020, quando checava declarações da advogada Flavia Ferronato, que expôs nome e telefone da jovem.

Segundo a cartilha sobre medidas legais para a proteção de jornalistas contra ameaças e assédio on-line, feita pela Abraji e pelo Observatório da Liberdade de Imprensa do Conselho Federal da OAB, doxing é a prática de procurar e divulgar informações privadas ou de identificação pessoal de um indivíduo, como seu telefone de e-mail ou endereço, em um ambiente que encoraja ou culmina na intimidação da pessoa exposta. “No âmbito criminal, não há uma resposta ao doxing propriamente dito”, indica o documento.

Essa falta de mecanismos legais e institucionais para repreender ataques físicos e morais às mulheres jornalistas é um problema de toda a América Latina, na análise de Gabriela Buada Blondel, cofundadora do site Caleidoscópio Humano, da Venezuela.

Embora a Convenção Americana de Direitos Humanos assegure a liberdade de pensamento e de expressão a “toda pessoa”, a jornalista lembra que “o machismo é um problema estrutural na região, que vive um contexto patriarcal e marcado pela violência de gênero, do qual as redações não escapam.” Segundo ela, os ataques misóginos em seu país são agravados pelas crises política, humanitária e econômica que desestabilizam a sociedade venezuelana.

Ao analisar mais de 11 milhões de tweets, o site colombiano Sentiido e a ONG argentina Comunicación para la Igualdad mapearam os ataques a jornalistas na rede social entre out.2019 e out.2020, em nove países latino-americanos (Argentina, Colômbia, México, Nicarágua, Paraguai, Uruguai e Venezuela), e encontrou um claro viés de gênero: 75% das agressões direcionaram-se contra mulheres e 68% das entrevistadas disseram ter tido sua liberdade de expressão violada nas redes.

Na celebração do Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, 25.nov, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, na sigla em inglês) adiantou dados de uma pesquisa global sobre violência contra mulheres jornalistas, feita neste ano junto com a Unesco.

Entre as mulheres jornalistas que responderam ao questionário, 73% dizem ter experienciado violência no ambiente on-line por realizar seu trabalho. E 20% das mulheres jornalistas que participaram do levantamento dizem ter sido atacadas presencialmente depois de ser vítimas de violências virtuais coordenadas.

Palavras

Burra, feia, gorda, prostituta e vadia são algumas das ofensas utilizadas pela família Bolsonaro, mas também por outros internautas, para atingir as profissionais de imprensa, como apontou esta carta redigida pelas diretoras da Abraji em mar.2020. Jornalistas que atuam em várias regiões do país, como Constança Rezende, Juliana Dal Piva, Miriam Leitão, Marina Dias, Patrícia Campos Mello, Vera Magalhães e Schirlei Alves sofreram linchamento virtual.

“No Brasil, estamos descobrindo que ser mulher e jornalista nos transforma em alvos”, escreve Campos Mello, no livro A Máquina do Ódio. Ela, que é diretora da Abraji, lembra, no mesmo trecho, algo que diferencia a mulher na imprensa. “Na nossa profissão, ser mulher mais ajuda que atrapalha. Somos quase 50% da população mundial e temos o privilégio de poder conversar livremente com outras mulheres”.

Especialista em questões de gênero, a antropóloga Debora Diniz vê o aumento de violência de gênero no jornalismo como resultado de um contexto mais amplo. "Até mesmo no jornalismo investigativo as mulheres são desqualificadas. Um campo tradicionalmente dominado por homens, com ideais de heróis e detetives. Quando as mulheres se inserem nesse cenário, a desqualificação é agressiva para ignorar suas vozes", diz a pesquisadora da UnB que teve de deixar o Brasil em 2018 depois de sofrer ameaças.

 

Fonte: Abraji, por  Letícia Kleim, Maria Esperidião e Pedro Teixeira

 

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